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A TV que não se vê: Clodovil e Eu

Atualizado em quarta-feira, 14 de abril, 2010

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Fala-se muito em decoro parlamentar. Eu não sei o que é decoro com um barulho desses enquanto a gente fala. Aqui parece um mercado. Isso aqui representa um País. Nem na televisão, que é popular, se faz isso.

Primeiro discurso na Câmara dos Deputados (6/2/2007)

O estilista e deputado Clodovil Hernandez

Ele, um companheiro de trabalho e homem admirável.
Eu – testemunha de polêmicas, contemporânea de atos e frases de um gênio indizível, temperamento oblíquo, de nervo exposto e escancarado; privilegiada com seu respeito, educação, cordialidade e – pasmem se quiserem– generosidade em ensinar, em “trocar”, como dizia. Guardarei para sempre o presente de ter partilhado um pouco de sua vida, filosofia, seus olhares únicos, ferinos… Ah, quando aquelas sobrancelhas arqueavam por cima dos óculos… a terra tremia de gozo ou de raiva.

Conviver e trabalhar com Clodovil me fez, no mínimo, questionar posturas, pensar e repensar o que ele queria dizer, aonde queria chegar com atitudes aparentemente incoerentes e cruéis. Por que ele nunca fora cruel comigo? Por que algumas pessoas contavam com sua “tolerância”? Não sei. Mas o que vi e vivi me envaidece. Aprendi muito. Uma contemplação.

Clodovil Hernandes não era “8 ou 80”, “ame ou odeie”, “aceite ou rejeite”. Clodovil era Clodovil e pronto. Quem mais com essa personalidade vemos ou ainda veremos nos próximos tempos? Incomodava, insultava, provocava enlouquecidamente? Sim. Clodovil foi mister em dizer o que não ousávamos e o que não precisava ser dito com elegância gramatical e cinismo únicos. Difícil saber se brincava de fazer sofrer, ou se acreditava que apenas o sofrimento dignificava.

Convivi tempo suficiente para admirar sua franqueza – como o nervo – exposta.

O único e maior prejudicado com suas declarações ácidas de difícil aceitação era ele mesmo. Como ferir uma pessoa que se machuca a si mesma dessa forma? Processos jurídicos e a “lei dos homens” tentavam ordenar as coisas, tomar a “lição” do cidadão de palavras duras. Nunca adiantou. Sem medo, ou com coragem (são duas coisas diferentes), Clodovil sempre disse o que quis para quem quis, inconstante e coerente.

Nunca vi Clodovil se “desdizer” ou voltar atrás. De nossa convivência, há muito o que falar. Mas de uma situação me lembro frequentemente: quando ele disse que sabia que não estava certo sempre, mas mesmo errado, seguiria errando até o fim, defendendo o que disse até o fim, porque a palavra havia sido dita.

Talvez assim consiga entender atitudes autodestrutivas e inexplicáveis que tomava vez ou outra… Polêmico e famoso ao ponto de ser uma das personalidades mais imitadas neste País, mais lembradas e discutidas, Clodovil ainda tinha muito a oferecer. Não se conformava de a televisão, com o poder que tem, não levar conhecimento e educação para as pessoas. Seu sonho era transformar, partilhar o que sabia. Nos últimos anos, era uma vontade desesperada, até.

A genialidade não lhe dava o direito de ser grosseiro e ofensivo? Não. Mas comigo nunca foi. Como não foi com muita gente. Havia um entendimento do que as pessoas podiam alcançar e responder. Clodovil cutucava, cutucava mesmo. Talvez sem consciência, por natureza, polemizava, infernizava, xingava, “desopilava” o fígado com autoridade de poucos. Era difícil de conviver. Era uma delícia de conviver.

Escolhia pessoas que lhe servissem a contento. Mais um defeito? Discutível… mais louco é pensar como tais pessoas se sujeitavam a servir ao que não acreditavam. Clodovil parecia ter um “medidor” de fraqueza humana. Sabia em quem podia bater e depois afagar. Cruel. Verdadeiramente cruel. Conheço pessoas que simplesmente odeiam Clodovil Hernandes. Eu preferi absorver, aceitar o que não sabia para aprender mais e sempre.

Gravei um CD com sua voz e canções. Quando recebeu, ouviu – arqueou as sobrancelhas – e disse: “você é muito talentosa, menina…”
Esse CD existe e tenho comigo, única edição de uma matriz que não existe mais.

Clodovil tinha um medo, sim. Um único: de morrer e se perder de sua mãe, de não encontrá-la no outro plano. Todos que o amavam torcem para que possam estar juntos hoje.

Com todo o meu respeito, admiração e um único arrependimento: de não ter passado mais tempo ao seu lado. A mim, sua última lição: Procure quem ama, partilhe enquanto é tempo de pessoas que cativou e cativaram você. Procure não ter medo, e sobretudo, tenha coragem. E seja o que Deus quiser.

Carmen Farão

É Jornalista, Radialista e Diretora do programa Todo Seu apresentado por Ronnie Von na Tv Gazeta de São Paulo.





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