Seus filhos, Nossos Alunos

Desde muito tempo escuto colegas professores falando sobre a dificuldade de relacionamento entre família e escola. Por outro lado, em geral, não deixo de ouvir familiares e amigos queixando-se da mesma dificuldade, o relacionamento da escola com a família.
Vale a pena lembrarmos alguns detalhes que podem fazer grande diferença para que compreendamos os “porquês”, tanto de um grupo como de outro, relatarem as dificuldades e divergências no relacionamento família X escola.

Trata-se de grande equívoco encarar os protagonistas dessa relação como, por exemplo, dois lutadores de boxe num ringue. – “Senhoras e senhores: no canto esquerdo temos a família e no canto direito, a escola”; até porque bem no meio desse ringue estará o filho/aluno e, ao contrário do que ambas possam pensar nos momentos de crise, suas funções na educação de nossas crianças e jovens são complementares e em nenhum momento elas devem aparecer em corners diferentes.

Como em toda relação, e com essa não é diferente, de fato há desgastes. Entretanto, boas conversas devem ser o caminho para que tanto a família, como a escola compreendam as razões de alguns desalinhamentos; desencontros, aliás, são perfeitamente normais. Além do mais, é sempre bom lembrar que não há família perfeita e tampouco escola perfeita, mas certamente existem famílias e escolas que buscam atuarem melhor no cumprimento de suas obrigações. E essa melhor atuação passa, necessariamente, pelas rodadas de conversas há pouco mencionadas, o diálogo. E se assim agirem, são grandes as possibilidades de estarem caminhando firme e fortemente para atingirem seus objetivos: uma educação de qualidade para o filho/aluno.

Vamos subir nesse ringue para falar um pouco daquele que ocupa seu canto esquerdo, a família. Um dos pilares de nossa sociedade, berço da educação de seus filhos, onde os valores morais e sociais devem ser repassados como base do processo de socialização, a família passa por um processo de transição.

“Aquela configuração de pais e mães unidos em matrimônio, jurando ficarem juntos até o fim de suas vidas, com divisão de papéis bem clara, ao menos conceitualmente, deixa de existir no final dos anos 50 e início dos anos 60 devido às mudanças culturais, sociais, econômicas e políticas ocorridas na sociedade. Nesse período, o núcleo familiar pai/mãe interagiam com os demais membros familiares, contando com definições claras de hierarquia e de autoridade e com estreita relação com irmãos, primos, tios, ou seja, a extensão da família. Nessa configuração, ficava claro o compromisso de todos os adultos com a educação dos mais novos.

As transformações dos anos 60, ao final, nos apresentaram uma nova realidade onde não encontramos um modelo familiar. Com o surgimento do divórcio e a sucessão de casamentos, as relações horizontais e verticais familiares se perdem, assim como os outros núcleos da extensão familiar, fazendo com que a posição de pais e mães em relação aos seus filhos mudasse, passando estes a se enxergarem como amigos de seus filhos, o que não compactua com papéis hierárquicos e de autoridade.”(1)

Passando para o canto direito do ringue, vamos falar sobre a escola, outro pilar de nossa sociedade. A escola, como a conhecemos hoje, foi fundada há 2.500 anos, na Grécia antiga, por Platão. O pensador do século IV A.C. decidiu reunir um grupo e organizar num jardim de Atenas, onde durante determinado período havia um templo para um personagem mitológico, um lugar para se pensar, para se debater, para se pensar além do óbvio. Dessa maneira, no jardim de Academo surge a ideia, como disse o Prof.

Mário Sérgio Cortella em um programa matinal de rádio, de uma das mais importantes escolas da humanidade e, talvez ainda, a primeira forma de Universidade do Ocidente.

A escola, desde então, vem sofrendo com as mudanças ocorridas na sociedade e no modo de vida das pessoas e servindo a muitos propósitos, claro, quando vislumbrado nela toda a sua importância por ser um dos lugares onde se é possível fazer educação.

É muito comum encontrarmos pessoas que confundem educação com escola e vice-versa. Se entendermos que educação é o caminho que leva cada um de nós a nos tornarmos Seres Humanos e a escola, onde nos formamos, organizamos nossas ideias, nos ajudando a estruturar capacidades e habilidades, podemos entender a razão de então não ser ela, a educação, exclusividade da escola. Educação acontece no clube, nas instituições religiosas, assim como em outros lugares, mas de forma sistematizada, organizada e estruturada, onde ocorra o ensino e a aprendizagem, somente na escola.

Voltemos nosso olhar na direção do aluno/filho que é a razão principal para que tanto escola como família se relacionem bem e com vínculos estreitos de confiança. Afinal, vamos lembrar, todas as manhãs o filho de uma família sai de casa e vai para a escola e ao chegar lá se transforma imediatamente no aluno, não é mesmo? Pergunto: Quando ele deixa de ser filho e passa a ser aluno e quando ele deixa de ser aluno e volta a ser filho? Há uma resposta para essa pergunta? Não consigo encontrar, sinceramente. O certo é que a família precisa entender que há momentos que seu filho será tratado como tal, mas normalmente será tratado como aluno e a escola precisa estar atenta para os momentos que o seu aluno deva ser tratado como filho de uma determinada família.

Vislumbro apenas um caminho para descermos de uma vez por todas desse ringue e nos colocarmos, famílias e escolas nos lugares de educadores e responsáveis, em última análise, pela felicidade daquele filho/aluno e entendermos o papel que cada um deve exercer na educação dessa criança. Afinal, família: você não pode ir assistir às aulas no lugar de seu filho, mas os valores que foram transmitidos a ele estarão sentados nos bancos do pátio escolar, em pé na fila para comprar a ficha na cantina no horário do intervalo ou na cadeira da sala de aula.

Ei, escola! Lembre-se que seu aluno não pode ser tratado como mais um, pois é o filho de uma determinada família, ele é o bem mais precioso dela, ele é muito importante!

De forma geral os conflitos entre escola e família têm origem quando a família espera que a escola trate seu filho de forma privilegiada ou quando a escola não apresenta flexibilidade para o atendimento das necessidades do seu aluno.

Como sugestão: família, quando for definir a escola que matriculará seu filho procure saber, com profundidade, que projeto de escola ela segue, se o projeto pedagógico está alinhado com as expectativas que deseja para a continuidade da formação de seu filho e analise de forma criteriosa suas normas de convivência. E escola: deixe sempre muito claro todos esses aspectos quando estiverem atendendo famílias que a procuram, tratando de forma transparente as suas qualidades e os focos de atuação no processo de ensino-aprendizagem e lembrem-se, ambos: seus filhos são nossos alunos e nossos alunos são seus filhos!

(1) Extraído do Texto “Famílias e limites” de Rosely Sayão

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