Sabe com quem está falando ?

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Nome é algo tão sério que deveria ser dado provisoriamente ao nascimento, com direito a confirmação ou alteração em algum momento da vida. Pensando em tanta gente que não se encontra, na própria identidade sendo que hoje em dia, até o gênero sexual tem liberdade de escolha, porque não o nome?

Há Tibúrcio querendo ser Tibério; Marco Aurélio, em memória ao imperadorores da Roma antiga, Cosma gêmea de Damiana e que receberam seus nomes em agradecimento a São Cosme e Damião. Há tantos apelidos que procuram dar elegância a nomes incomuns , ou fora de época como Vi de Vicentina, Ro de Rosalinda, Fe de Felisberto. Nomes estrangeiros mal transpostos para o português, nomes de santos desconhecidos dados em promessa, nomes de personagens que se desatualizam depois de passados os sucessos das novelas ou filmes que os inspiraram. Isso sem falar dos nomes que viram até motivo de piadas e constrangimentos como no caso de chamar-se Aspirina ou Cibalena, ou tendo nomes geométricos de Hipotenusa ou Quadrado do Cateto. O nome escolhido pelos pais, geralmente foi dado com as melhores das intenções, seja para agradecer, homenagear ou lembrar um fato marcante. Não dá nem pra reclamar. Vejam o meu caso, um dia ao telefone:

-Alô! Posso falar com o senhor Apolinário?
Por um segundo pensei tratar-se de engano. Depois me lembrei que Apolinário é o meu segundo nome. É este o A. que acompanha o meu primeiro nome: Ricardo. Nunca entendi o que este Apolinário fazia junto ao Ricardo.
Ricardo sempre me agradou. Nome de reis, conquistadores de terras e mulheres-Ricardão, era um apelido que inspirava respeito de pegador. Não que eu fosse, mas mesmo injustificada a fama me agradava. Quando garoto, se meu irmão quisesse me provocar, chamava-me pelo apelido de Popó. Era luta de boxe na certa! Certa vez minha mãe me explicou que Apolinário significava “dedicado a Apolo”. Nem assim me conformei. Ricardo inflava meu ego pra compensar o A. de Apolinário que sempre me tirou o foco de tudo que eu poderia ser como Ricardo.
Se por um lado o Ricardo fazia meu ego voar, o Apolinário colocava-o no chão. Como o pavão que olha para os próprios pés e percebe que a bela plumagem tem nos pés seu ponto fraco. Sentia-me como o ídolo de ouro e pés de barro. Melhor se houvesse coerência. Se os pés são feios, preferível uma plumagem menos exuberante ou então ser feito de barro totalmente. Isso talvez me desse uma identidade elementar. Como na química, onde há elementos que se combinam e outros que não. Quando a combinação é imperfeita, o resultado é a instabilidade da substância. Essa desagregação incoerente de Ricardo Apolinário é o que me martiriza, como se eles travassem uma luta, para prevalecer em mim. Um cheio de pompas e circunstâncias, o outro singelo, humilde e discreto. Assim, eu nunca pude seguir o sábio conselho que recomenda, ” conhecer a si mesmo antes de tudo”, já que pela oposição subjacente que trago em meus nomes, sempre me divido nesta dúvida de saber com qual estou falando.

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Edição 27

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