O JULGAMENTO DO ORNITORRINCO

O ornitorrinco

Fazia parte do governo de uma floresta. Não por isso, mas sem excluir a hipótese de por causa disso, foi flagrado, um dia, em atitude delituosa, acusado de crime de natureza variada.

Depois do inquérito, apurou-se que ele tinha intenções de ser alçado à condição de bicho reinante sobre os demais, mediante o favorecimento de permitir que os ratos furtassem os alimentos dos outros animais. Como os ratos tinham grande representação nas assembleias que elegiam os governantes da floresta, o ornitorrinco pretendia, dessa forma, contar com seus apoios e eleger-se chefe da bicharada. Descoberto, entretanto, em seus planos, o ornitorrinco viu-se em maus lençóis.

Contudo, logo seus advogados o tranquilizaram, lembrando que havia um problema para julgá-lo. Exigia a lei vigente entre os animais, que cada bicho deveria ser julgado por um tribunal formado conforme a espécie zoológica do réu. Entendiam todos que devido às particularidades próprias de cada espécie, como seus hábitos, necessidades e instintos, somente seus semelhantes teriam melhor entendimento a respeito das razões que poderiam levar um da mesma espécie a cometer um delito. Mas como julgar então um ornitorrinco?

Animal estranho, bizarro; meio ave aquática, meio mamífero, meio réptil. Seus hábitos noturnos o tornam pouco conhecido. Jeito de pato pateta que também põe ovos e por trás da falsa aparência inofensiva possui nas patas um ferrão de veneno tão poderoso quanto uma serpente. Difícil classificá-lo. Por qual tribunal deveria ser julgado? No dos mamíferos por possuir pelos e aleitar-se lambendo a mãe? Ele nem mama de fato, pois a fêmea não tem tetas e o filhote não tem boca, tem bico! Portanto, impossível mamar de fato como um mamífero.

Ou seria melhor julgá-lo no tribunal das aves, por ser ovíparo, ter nadadeiras e bico de pato? Mas também caberia recurso para querer julgá-lo na corte dos répteis que também põem ovos e são venenosos como ele… Mesmo na análise de seu genoma há características das três espécies.

Dessa forma instruíram-se as raposas, seus advogados, nesta linha de defesa. Não havia nas instâncias judiciais, tribunal competente para julgá-lo. Tentativas houve de levá-lo a júri, mas sempre infrutíferas diante dos embargos. E assim foi se protelando à eternidade seu julgamento. De tribunal em tribunal, de apelo a apelo, de embargo em embargo; até que finalmente um dia, por magistral acordo, achou-se por bem inocentá-lo do delito, pois o mérito da questão não merecia a exposição e tanto desgaste das cortes, uma vez que o precedente não se repetiria, visto que no reino animal não há outro bicho como ele. Se na matemática 1 somado a 1 sempre serão 2, nem sempre o entendimento da lei será invariável. Assim, decidiram que era melhor absolver o ornitorrinco e dar o caso por encerrado.

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Edição 27

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