Istambul ou Constantinopla

Há momentos em que vemos a história se repetir e a lição do passado torna-se útil no presente.

Desde que o Império Otomano tomou Constantinopla, em 1453 e, portanto, Pedro Alvares Cabral ainda nem tinha nascido para deixar de ir às Índias e vir conhecer as índias brasileiras, que gregos e turcos passaram a ter mais uma razão para inimizades, além das diferenças religiosas entre a fé católica ortodoxa e a muçulmana.
E Bizâncio, tomada pelo califa Mehemed II, além de ter sido um marco histórico para as navegações também marcou, para sempre, as relações entre gregos e turcos, fazendo com que as diferenças político-religiosas chegassem até à gastronomia. Explicarei.

Nicolau, nome que entre os gregos é tão comum como Mustafá entre os turcos, era um feliz proprietário de um próspero restaurante de culinária grega. O Athenas. Quando o Nick, que é como os fregueses patrícios o chamavam, comprou a casa de um português, por isso, talvez, chamada à época de Lanches Serra da Estrela, o estabelecimento tinha no cardápio o trivial prato comercial, trazendo o torresmo à pururuca, nadando na banha de porco, como carro chefe das suas iguarias. O ponto de comércio era excelente, mas mal aproveitado. Rua Antonio Carlos, próximo à Rua Augusta, a duas quadras da Avenida Paulista. Lugar certo para, ao invés dos clientes mais modestos, que frequentavam o Serra da Estrela, poder, sim, atrair os funcionários do segundo e terceiro escalão dos escritórios, bancos e serviços públicos que se concentram nessa região da capital paulista. E foi ali que o Nick resolveu dar seu toque de Midas e fazer sua mussaká. Trouxe a culinária grega do Mediterrâneo para o coração da Avenida Paulista. O sucesso estava encomendado.

O negócio começou a andar de vento em popa e a bandeira da Grécia na entrada do restaurante, lembrava que o vento estava bom na proa da nau grega também. Juro que a vi tremular um dia! O Nicolau logo inaugurava mais um restaurante na esquina e ampliou o negócio. E mais um, a poucos metros desses dois. Um restaurante dava suporte ao outro e se, por acaso, faltasse algum funcionário em um deles era fácil para ele deslocá-los entre os seus restaurantes, como soldados que fossem transferidos de um quartel para outro. Estratégia aprendida com as Guerras Helênicas, creio eu. Estratégia que incluía o fornecimento dos próprios víveres, por isso tinha açougue e padaria próprios a lhe fornecer o pão e a carne consumidos. O grego administrava com aquele faro de negociante e mão de soldado espartano nas exigências com os funcionários, embora esbanjasse simpatia com a clientela.Fazia questão de estar presente às mesas no horário de almoço e supervisionar pessoalmente a cozinha.Cuidava, assim, de engordar seu porco sempre debaixo dos próprios olhos.

Tudo ia muito bem até que, na Augusta, quase no seu calcanhar, abriu um restaurante com o nome de Istambul. Cozinha turca, não por acaso dizia a placa no lado de fora, anunciando o kuru patlican, dana haslama, haydari. O grego resolveu atacar, instruindo o comandante da cozinha a por em campo o melhor da sua artilharia. Saiu-se com o keftedes, charutinhos de folhas de uva, os dolmathaka, o moshári, e o hummus, que o turco também oferecia. A guerra da concorrência estava aberta muito mais por razões históricas, já que comerciais não poderiam ser. O restaurante turco, pequeno e sem uma frente ampla, não chegava aos pés do grego. Este, com muitas mesas dispostas na calçada, disputadas pela clientela na hora do almoço começava a fervilhar no happy hour. O cinema era ao lado, e o chopp e os petiscos gregos convidavam até para depois da última sessão. Desfilavam pessoas variadas, dessas que transitam pela Augusta quando o sol se põe. A Rua Augusta, verdadeira floresta humana. Durante o dia, comportados e presumíveis executivos e secretárias. À noite, vê-se desfilarem pessoas que, como viventes notívagos, saem depois do pôr do sol, a expor tatuagens, piercings, adereços, roupas e cabelos de todos os tons e modelos. Eclética é a Augusta, e tudo permite que se seja, desde que a opção do estilo seja o incomum.

A guerra da concorrência estava aberta muito mais por razões históricas, já que comerciais não poderiam ser. O restaurante turco, pequeno e sem uma frente ampla, não chegava aos pés do grego.

Mas o Nick, mesmo na vantagem, não dava folga ao turco. Fazia marcação cerrada, sabendo ademais que o nome Zeki, que era o do turco e que significa esperto, não permitia vacilo. Incomodava mais a ele a presença do turco ali, que a concorrência. Ele não se conformava com o fato do nome do restaurante ser Istambul. O grego, para observar melhor o que o outro fazia e conhecer com detalhes o terreno do inimigo para planejar sua estratégia, passou a enviar espiões ao restaurante do turco. Chegou a incumbir Januária para atuar como uma espécie de Mata Hari nordestina montada num Jerico de Tróia, e pedir emprego no restaurante do Zeki. E, assim, a fiel soldado seguiu à risca as instruções do general, com a promessa de uma promoção à gerência que ela não viu ser cumprida. Passando a trabalhar na cozinha turca, errava sempre no cozimento e exagerava a mão no sal e na pimenta. Quando seus erros sucessivos foram percebidos, foi demitida. Mas já era tarde. Não há clientela que permaneça quando a cozinha é ruim. Além disso, também havia ferido o inimigo através de ações trabalhistas e indenizações. O resultado não poderia ter sido melhor para o grego, que indicou o advogado a ela. Prejuízo na clientela e um acordo trabalhista de R$ 30.000,00. O grego usava de todas as estratégias na sua guerra pessoal. E começou a apertar o torniquete sobre o turco. Nos preços, nos pratos, nas promoções. Tinha cartucho e bala na agulha para o duelo histórico, digo, comercial. E continuou sem tréguas na batalha até que um dia, passando em frente do restaurante turco vejo a placa que anunciava: Passo o ponto. Ele, como bom grego, embora interessado, não foi negociar diretamente. Negociação difícil já por natureza, frente à nacionalidade do vendedor. O Nicolau, sabendo que o turco não facilitaria o negócio a um grego mandou então um emissário, seu testa de ferro. A negociação que se seguiu mais parecia a disputa entre uma raposa e uma aranha que teceu a teia. Mas a raposa, sem saber com quem negociava, baixou a guarda e caiu na teia. Em um mês a casa foi reaberta ostentando a bandeira grega desfraldada, com seu novo nome de Constantinopla. O Imperador Constantino, em seu túmulo real agradeceu ao novo nome dado ao extinto Istambul. E, assim, encerrou-se mais um episódio da história greco-turca, desta vez com vantagem grega.

Eu soube, tempos depois, que o turco Zeki, após a malfadada experiência no restaurante, resolveu partir para o ramo da hotelaria. Comprou o Hotel Acrópolis que rebatizou de Ankara.

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Edição 27

A Estilo Fashion é publicada semestral e contém assuntos váriados como moda, gastronomia, saúde, etc.

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